Por baixo dos panos da moda sustentável

by Fashion Revolution Brasil 7 months ago
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Por Ana Fernanda – Jornalista e Articuladora de Moda Sustentável

A indústria da moda contribui com 10% do total de emissões de gases do efeito estufa e com 20% da poluição nos oceanos e mares.

É amigos – não está sendo fácil, já antecipava aquele hit da década de 80. Enquanto nós estamos aqui, com a cabeça na próxima semana de moda, na produção do próximo editorial ou no problema com o fornecedor,  a indústria da moda – essa mesma, que a gente ama e da qual a gente vive – não tem sido muito legal com o nosso planetinha.

Para dar conta de produzir cerca de 150 bilhões de novos itens de moda por ano, montamos uma complexa cadeia que vai da produção / extração da matéria prima, seja ela algodão (cuja produção consome altas doses de agrotóxicos), seja o poliéster, um subproduto do petróleo. A indústria da moda contribui com 10% do total de emissões de gases do efeito estufa e com 20% da poluição nos oceanos e mares, principalmente de resíduos tóxicos usados no tingimento. (Vejam “Moda Ética para um mundo sustentável”, de Elena Salcedo), recebendo por isso o pouco honroso título de segunda indústria mais poluente do mundo, perdendo apenas para a de petróleo.

A produção também deixa a desejar, marcada por casos de exploração da mão de obra, inclusive infantil, e de más condições de trabalho. Quem lembra do Rana Plaza? O prédio, que ficava em Bangladesh, abrigava oficinas que produziam para marcas internacionalmente conhecidas, como a Benetton, H&M e Primark, desabou em abril de 2013, matando 1.134 pessoas. Quase quatro anos depois, mesmo com o pagamento de indenizações por parte das marcas para as famílias e sobreviventes e da assinatura de acordos por mais segurança nas fábricas , pouca coisa mudou: o risco de outra tragédia é grande.

Essas informações não estão publicadas em algum relatório obscuro restrito a especialistas. Obras como o documentário “The True Cost”, disponível no Netflix, ajudaram a lançar luz sobre essas questões; o movimento Fashion Revolution, pressiona marcas por mais transparência no mercado da moda; a Clean Clothes Campaign promove a melhoria das condições de trabalho dos trabalhadores da indústria. No Brasil, a organização não-governamental Repórter Brasil desenvolveu um aplicativo gratuito em que avalia marcas se acordo com o uso de mão-de-obra análoga à escravidão, além de publicar matérias sobre o assunto. Mais responsabilidade, ética e justiça na moda é assunto de todos.

Daí para começarmos a falar de moda sustentável, moda ética ou justa, limpa e transparente, foi um pulo. Mas o que isso quer dizer? Para quais pontos a indústria e os consumidores da moda deve atentar, para produzir e consumir com mais responsabilidade? Sem esgotar o assunto, podemos destacar três aspectos:

·         Ecologicamente correto: Extrair matéria-prima, produzir, vender e descartar levando em conta que vivemos em um planeta cujos recursos naturais são finitos, e que desenvolvimento sustentável implica em usufruir de tais recursos sem comprometer as gerações futuras. Cabem aqui as discussões sobre formas de produção menos poluentes, menos consumo de água e responsabilização das marcas quanto aos resíduos de sua produção.

·         Socialmente justo: Não basta ser de algodão orgânico se é feito com mão-de-obra trabalhando em condições análogas à escravidão ou se os trabalhadores são impedidos de se sindicalizar, perseguidos e presos em retaliação aos seus protestos – como acontece hoje na mesma Bangladesh em que o Rana Plaza desabou. A moda é hoje a indústria mais dependente de mão-de-obra e os direitos mínimos dos trabalhadores precisam ser respeitados.

·         Economicamente viável: não se está falando de fazer caridade. As empresas precisam responsabilizar-se pelos dois aspectos acima e manter-se competitivas, cumprindo com suas responsabilidades perante trabalhadores, governos, acionistas e consumidores. Moda sustentável não precisa ser sustentada por ninguém (o que inclui não chantagear governos afirmando que só adotará medidas responsáveis se tiver isenção de impostos).

E tem uma coisinha que a moda sustentável definitivamente não deveria ser: uma maquiagem com vistas a confundir o consumidor e induzi-lo ao erro, através de expressões vazias como “eco-friendly”, “verde”, “eco-eficiente” e etc, que não dizem necas de pitibiriba em que aquele produto é diferente. Em outras palavras: Greenwashing. É sério que alguém ainda faz isso?, você me pergunta. Seríssimo. Amigos, melhorem.

(Aliás, vocês devem lembrar o estrago à imagem de marcas que se utilizaram de estratégias de marketing “bonitinhas” e que não correspondiam à verdade. Quem lembra do suco Do Bem, que supostamente comprava sua matéria-prima diretamente de pequenos agricultores? O caso foi arquivado pelo Conar, mas o arranhão na marca… Bom, melhor a gente fazer o próprio suco. Greenwashing não apenas é feio, como faz mal aos negócios).

No Brasil, a designer Flávia Aranha utiliza 50% de algodão orgânico em suas criações, tingidas com corantes vegetais e produção parceira com cooperativas. A californiana Patagonia fez história a partir do lema “Build the best product, cause no unnecessary harm, use business to inspire and implement solutions to the enviromental crisis” (em português “Fazer os melhores produtos, causando o mínimo de impacto, usando os negócios para inspirar e implementar soluções à crise ambiental”) – e incentivando os consumidores a comprarem MENOS, inclusive os seus produtos. Fundada em 2014, a gaúcha Insecta Shoes faturou R$ 1  milhão em 2015, produzindo sapatos usando como matéria prima roupas usadas e sem uso de matéria prima de origem animal.

Isso sem falar dos negócios de moda que implicam em não produzir ou vender roupa – como a Lena, “biblioteca” de roupas em Amsterdan, que já tem pelo menos dois equivalentes nacionais: a Roupateca e a Lucid Bag; e a Retalhar, empresa de logística reversa aplicada ao mundo da moda.

Não está sendo fácil – e ninguém disse que seria. Mas já imaginaram que incrível seria fazer parte de uma revolução de verdade na moda? Torná-la uma força motivadora de mudanças positivas reais para o planeta e para todas as pessoas? A gente acredita que a hora é essa.

 Texto enviado por Ana Fernanda – Representante do Fashion Revolution de Salvador, jornalista e articuladora de Moda Sustentável  para Fashion Revolution Brasil

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