O que você precisa saber, sobre trabalho justo.

by Fashion Revolution Brasil 3 months ago
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Por André Carvalhal

Trabalho justo

Essa história começou há muito tempo. No dia 08 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos em NY, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, assim como respeito e igualdade (em relação aos homens). Elas queriam redução da carga horária de trabalho de 16 (oi?) para 10 horas por dia, equiparação de salários com os homens (que ganhavam em média 3 vezes mais pelo mesmo trabalho) além de tratamento digno no local de trabalho. A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fabrica, que foi incendiada. Lá se foram (carbonizadas) aproximadamente 130 tecelãs. Em homenagem a este acontecimento foi criado (e oficializado pela ONU) o dia internacional da mulher.

Tiago Mattos, diz em seu livro “#VLEF – Vai lá e faz”, que a normalidade de hoje é o absurdo de amanhã. Mas enquanto vivemos uma aceleração absurda na mudança dos formatos de trabalho, o “fim das profissões e carreiras”, com novos modelos mais horizontais e livres, questões trabalhistas degradantes à vida – desde as mais básicas até o serviço análogo ao escravo – ainda são tidas como normais para alguns.

Diversas vezes fiquei constrangido ao visitar fabricas ou escritórios de marcas que nada representavam a imagem externa que tentavam construir. Lugares tristes, sem vida, onde a criatividade não era estimulada – assim como a consciência social, a saúde mental, a higiene… (Como querer que seus funcionários se preocupem em servir bem aos outros se não estão bem servidos? Como valorizar o outro sem se sentir valorizado?)

Mas por outro lado tive a chance de me conectar com grandes organizações como adidas, C&A e Disney, que fazem vistoria detalhada em todos os seus parceiros e fornecedores. Elas estão interessadas em saber se as pessoas que ali trabalham são felizes, se usam roupas e acessórios adequados à segurança do trabalho e por ai vai. Não topam nenhum tipo de associação (seja um cobranding ou mesmo a contratação de um serviço), até que tenham segurança sobre “como” as coisas ali são feitas. Isso é verificado através de visitas, pesquisas, entrevistas com funcionários e outras iniciativas bem de perto. Para ter controle sobre a produção, hoje algumas empresas tem as suas próprias fábricas (adidas) e outras as suas próprias empresas de vistoria (C&A).

Algumas empresas se queimaram muito, por terem sua imagem associada ao trabalho escravo e infantil, como a Zara, Nike e Primark. Sobre o trabalho infantil, estima-se que 170 milhões de crianças sejam vítimas no mundo (muitas delas trabalhando na cadeia produtiva da moda). No contexto atual que vivemos, essa preocupação pode ser um gatilho para despertar o nível interno de consciência que os donos de empresas (marcas ou produtores) precisam ter.

Os vencedores do Prêmio Nobel da Paz de 2014, Kailash Satyarthi e Malala Yousafzai acreditam nisso. Ativistas dos direitos das crianças desde o inicio dos anos 80, eles promoveram uma transformação na indústria indiana de tapetes. Desde que se ligaram que as crianças pobres eram presa fácil para “corretores de mão de obra” que recrutavam trabalhadores para várias indústrias indianas – como a tecelagem e a moda – eles começaram a lutar contra esta prática. Capturadas por estes intermediários, as crianças eram vendidas e forçadas a trabalhar sob condições brutais, por mais de 12 horas, perdendo – entre tantas coisas – a chance de viver a infância.

Satyarthi começou sua luta como advogado, realizando blitz em empresas, na esperança de promover a conscientização sobre a exploração infantil. Um dia, voltando para casa, ele se sentia angustiado, pensando que jamais conseguiria dar conta de visitar ou transformar todas as empresas do mundo. Quando (para piorar, coitado) se deparou com o seqüestro de várias crianças, que às dúzias, seriam levadas para uma (sem) vida, de escravidão.

Ali ele percebeu que mesmo que conseguisse salvar aquelas crianças, tantas outras, em tantos lugares, passariam pelo mesmo. Então ele pensou, “se todos pudessem saber daquela realidade, tivessem consciência sobre a origem dos produtos comprados, talvez essa realidade pudesse começar a mudar” – Você teria na sua casa um tapete sabendo que foi feito por crianças em tais condições?

Assim ele criou a Rugmark, uma certificadora para produtos sem mão de obra infantil. Hoje, com o novo nome de GoodWave, a empresa opera mundialmente, certificando tapetes que tenham sido produzidos de forma ética. Assim Satyarthi, e muitos outros empreendedores sociais que implementaram sistemas de certificação, reforça sua tese de que consumidores (pessoas) representam um meio poderoso de se alterar um equilíbrio sustentável. “Quando um número suficiente de consumidores vota com sua carteira, o mercado entende suas preferências”, diz.

O 24 de abril de 2013 foi um dia triste para a moda. A queda do Rana Plaza, em Bangladesh, foi uma das maiores tragédias que a indústria já viveu. O edifício que abrigava (em condições precárias) diversas fábricas de roupas que produziam para grandes marcas globais (como a Benetton, Mango e Primark, conforme noticiado na época) colapsou, levando, em poucos minutos, a vida de mais de 1.000 trabalhadores têxteis e deixando outros 2.500 feridos. Detalhe, alguns meses antes, outras centenas morreram em um incêndio ali mesmo e nada foi feito. No total foram 200.000 pessoas mortas, em 300 acidentes, nos últimos 13 anos, em fábricas como esta.

O cenário, que mais parecia uma zona de guerra (entre escombros, pedaços de humanos e indivíduos soterrados vivos), foi o ponto de partida para o movimento Fashion Revolution (Revolução da Moda), criado em Londres pelas designers e ativistas Carry Somers e Orsola de Castro com o objetivo de despertar a consciência para as praticas antiéticas na moda, e lutar por um “mercado fashion” mais seguro, sustentável e humano. O movimento repercutiu.

Na época, a Primark comunicou em seu site oficial:

“O edifício que desabou abrigava várias fábricas que fabricavam vestuário para cerca de 28 marcas. Uma dessas fábricas fornecia a Primark. Os nossos pensamentos permanecem com as vítimas desta catástrofe, e respectivas famílias. A Primark trabalhou com parceiros locais em Bangladesh para prestar apoio financeiro e ajuda alimentar a curto prazo às vítimas e suas famílias. Também concebemos uma abordagem de indenização a longo prazo e temos feito pagamentos ao longo do último ano. Gostaríamos de agradecer aos nossos parceiros pela sua experiência e empenho em ajudar-nos a desenvolver e executar este programa. A empresa também participou plenamente na resposta da indústria na tomada de medidas para tornar o fabrico de vestuário no Bangladesh mais seguro no futuro.”

Junto com ela, outras marcas se comprometeram a alimentar um fundo de apoio às vitimas e às famílias. Mas em 21 de abril de 2015 jornal britânico The Guardian noticiou que grupos de direitos dos trabalhadores calculam que dois anos depois da tragédia, algumas organizações não cumpriram com as doações acordadas e os valores totais não passou de 70% do combinado.

Em 2014, quando a tragédia estava prestes a completar um ano, Carry e Orsola, estabeleceram que 24 de abril seria o Fashion Revolution Day, #FRD (Dia da Revolução da Moda), data marcada para aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto – da produção ao consumo – a partir da investigação de quem fez as roupas que usamos.

“Quem fez sua roupa?”, “Quais os materiais utilizou?”, “De onde eles vieram?”, “Como estas peças foram feitas?”. Estas eram as perguntas a serem respondidas. A campanha usa as redes sociais como forma de disseminação. Por ali, as fundadoras do FRD, convidam as pessoas e marcas a postarem fotos dos produtos do lado do avesso, com a etiqueta aparente, e as hastags #fashrev, #whomademyclothes e #quemfezminhasroupas (aproveite para dar uma olhada).

Em 2015 a ação ganhou força no Brasil e adeptos como a estilista Thais Losso, a consultora Chiara Gadaleta, a revista ELLE Brasil, entre tantos outros. Foram mais de 70 países celebrando a consciência do consumidor sobre o verdadeiro custo de nossas roupas – que muitas vezes é a vida. Assim como no caso dos tapetes, acredita-se que quanto mais os consumidores tiverem acesso à forma como suas roupas são feitas, tendo informações para balizar suas decisões, mais perto poderemos estar de uma solução.

Com esta mesma filosofia, o aplicativo de celular “Moda Livre”, da ONG Reporter Brasil, tem como meta avaliar as medidas que as principais empresas de moda do país adotam para combater o trabalho escravo. Atualmente, monitora 45 marcas de moda que foram convidadas a responder um questionário com as políticas da empresa, as medidas adotadas para fiscalizar os fornecedores (confecções), ações de transparência e o histórico de envolvimento em casos de trabalho escravo. As respostas renderam pontuação e, com base no resultado, as empresas são classificadas em três categorias: verde, amarelo e vermelho. Aquelas que não responderam foram automaticamente incluídas na categoria vermelha. O site gringo slaveryfootprint.org (é outro exemplo) calcula a quantidade de trabalho escravo envolvido nas cadeias que prestam serviço a você. Iniciativas como essas (e outras) ajudam a disseminar a história e a conscientizar as pessoas. Carla Lemos já percebe essa mudança em suas leitoras (que bom!):

“Acho que o grande lance agora é que as pessoas estão tendo mais consciência de si e do seu papel do mundo. Foi um movimento que alguns blogs legais ajudaram a promover, porque antes as revistas não falavam disso. É muito legal, de ver, a cada novo caso de escravidão ou de coisas negativas que acontecem na indústria, ou até mesmo coisas positivas relacionadas a consumo consciente, mais e mais pessoas compartilhando. Não é mais só o look do dia ou a nova bolsa que elas querem compartilhar”.

Em seu facebook, Renata Grimberg, dona da marca carioca Qvizoo, compartilhou o trailler do filme “The True Cost”, que fala sobre os valores ocultos da indústria da moda, comentando:

“Eu faço roupa há 10 anos. As fábricas que produzem para a minha empresa são todas no Brasil. Quando eu entro numa loja de fast fashion e vejo um vestido com preço final para a cliente mais baixo do que eu pago para o meu fabricante, eu fico assustada. Pode ter certeza que a margem de lucros dessa loja é maior que a minha, apesar de o meu produto final ficar mais caro para o cliente. Mas isso tem uma razão. Preciso parar e pensar sobre ela.“

Mas infelizmente ainda não são todos que pensam. Muitos consumidores ainda valorizam os preços baixos. Às vezes é uma necessidade, sabemos. Mas na maioria das vezes não. Ainda existem muitas pessoas conectadas com a lógica da “vantagem”, e do antigo capitalismo, dispostas a pagar pouco – custe o que custar. Só que geralmente é muito alto o custo que as marcas pagam para entregar um produto com baixíssimo custo. Quase sempre o que está em jogo é o planeta ou a vida das pessoas envolvidas no ciclo de produção.

Para alguns esta questão caiu na normalidade… muitos sabem do envolvimento de marcas como a Zara ou a Primark neste tipo de operação, mas continuam comprando (financiando).  Acredito que quanto mais pessoas tiverem acesso a este tipo de informação, maiores serão as chances de produzirmos produtos mais especiais, com preços justos. Afinal, como ser feliz pagando pouco por uma roupa que custou a infância ou a vida inteira de uma pessoa?

Texto retirado do livro  “Moda com Propósito” cedido pelo autor, André Carvalhal para Fashion Revolution Brasil

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