Economia colaborativa na moda: essa onda pega?

by Fashion Revolution Brasil 11 months ago
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Para gigantes da economia colaborativa, como Airbnb e Netflix, o futuro do consumo tem a ver com propriedade, não posse. Será que isso vai funcionar na indústria da moda?

Muitas vezes nós compramos coisas que precisamos/queremos, independentemente da frequência com que iremos usá-las na prática. Para itens que usamos o tempo todo – como geladeira ou uma cama – ou itens que seriam estranhos compartilhar – como escovas de dentes – a posse faz todo sentido. Mas para itens que só usamos de vez em quando (a velha história: você precisa de uma furadeira ou de um furo?), a posse pessoal não é rentável mas, no entanto, muitas vezes é a única maneira de garantir o acesso.

Mas com o avanço da tecnologia e a criação de marketplaces que conectam proprietários com quem precisa dos itens, ficou mais fácil emprestar uma furadeira na vizinhança em plataformas como o Tem Açúcar?, pegar carona no carro de alguém usando o Uber ou alugar um quarto vago pelo Airbnb.

A economia colaborativa está crescendo rápido. De acordo com a PwC, até 2025 ela pode gerar $335 bilhões em receita anual, mais do que os atuais $15 bilhões de hoje. Em 2015, os investimentos globais em start-ups de economia colaborativa totalizaram mais de $12 bilhões – mais do que o dobro do que foi investido em start-ups de social media – de acordo com a Deloitte.

Para os proprietários, a economia colaborativa transforma as posses em fluxo de receitas, permitindo que itens sejam úteis o tempo todo: um carro que só é usado para dirigir para o trabalho pode ser alugado quando fica parado, por exemplo. Para quem aluga, a economia compartilhada proporciona comodidade, já que compensa pagar para usar algo durante um curto período de tempo ao invés de adquirir definitivamente, garantindo acesso sem propriedade, o que agrada a nossa geração, já que valorizamos mais experiências do que bens materiais.

Leia mais: Economia colaborativa: compartilhar ao invés de centralizar

Mas a economia colaborativa pode funcionar na indústria da moda?

Roupas e acessórios normalmente tem preço alto, mas pouco uso – características de outros itens que se provaram populares em modelos de economia compartilhada. De acordo com Arun Sundararajan, professor da NYU, “É bem comum ter roupas que custam três ou quatro dígitos”, muitas das quais nós compramos e usamos apenas ocasionalmente. Somente nos EUA, mais de $8 bilhões em roupas está parado nos armários, sem uso, de acordo com um estudo do ThredUp.

Como resultado, dezenas de empresas de moda entraram no mercado de economia compartilhada, adotando uma variedade de modelos de negócios para aproveitar a oportunidade.

Serviços de aluguel de roupas

Serviços de aluguel de roupas permitem que usuários emprestem itens por um determinado período, tipicamente por um preço de custo de 10 a 20% do valor original. do item Exemplo desse modelo são o PowerLook, para aluguel de vestidos de festa, e o BagMe, de aluguel de bolsas.

Um das razões para alugar um terno ou um vestido de festa é ter acesso fácil e barato ao item por um período, sem se comprometer com um alto investimento que depois corre o risco de ficar esquecido no armário. Além disso, o usuário desfruta de um produto de qualidade e que ao mesmo tempo é acessível, garantindo a mesma sensação de satisfação pessoal.

Com mais poder de compra e escolha, mas com menor comprometimento, usuários podem usar sites de aluguel para renovar o guarda-roupas constantemente, permitindo que acompanhem as tendências da moda sem sentir culpa por gastar tanto por isso.

Mas ao contrário de marketplaces que conectam proprietários com terceiros que querem alugar – o que significa que os usuários podem monetizar a partir de seus itens pessoais, esses serviços de aluguel são oferecidos pelos próprios donos dos produtos.

Plataformas peer-to-peer

Serviços de aluguel peer-to-peer conectam usuários que querem alugar/vender/comprar/trocar entre si próprios. A proposta de valor é clara para os usuários: “tenho algo no meu guarda-roupas que não uso mais, seria ótimo encontrar um uso para isso e, de quebra, ainda ganhar uma grana extra”.

Um dos desafios desse modelo de negócios é assegurar a condição dos itens, assim como oferecer possibilidades para devolução caso a peça não sirva (já que, nesse caso, cada peça é única).

Impacto na indústria

Até agora, a economia compartilhada na moda demorou um pouco para deslanchar, comparado com outros setores como hospitalidade e transportes. De acordo com o relatório da PwC, apenas 2% da população americana já utilizou algum serviço colaborativo no setor do varejo, comparado com 6% em hospitalidade e 8% em transporte.

Alguns acreditam que, se a economia compartilhada na moda prosperar, os efeitos para varejistas tradicionais podem ser profundos. Os varejistas de fast-fashion podem ser os mais afetados, principalmente porque consumidores podem optar por serviços de aluguel de roupas de alta qualidade que estão na moda, ao invés de comprar versões mais baratas e de baixa qualidade nas ruas.

Consumidores continuarão a comprar itens do dia-a-dia, como pares de jeans ou tênis de corrida, mas recorrerão aos serviços de aluguel para itens de luxo ou que serão usadas apenas ocasionalmente.

Serviços de aluguel também serão fundamentais para os adeptos dos armário-cápsulas, já que poderão escolher apenas as peças-chave para compor um look de festa ou para causar um boa impressão numa entrevista de emprego, por exemplo.

“[Comprar] não é sobre coisas descartáveis, é sobre coisas que podem durar e que você pode alugar caso não esteja usando, e que manterão seu valor por um longo tempo”, diz Neal Gorenflo, co-founder da Shareable, um site de notícias sobre economia compartilhada.

Embora o compartilhamento possa ter um efeito negativo nas vendas do varejo, “na verdade ele aumentaria a atividade econômica como um todo”, defende Sundararajan. “Através do aluguel, o dinheiro gasto em roupas aumentaria, mesmo se o número de roupas compradas cair”.

Limites da economia compartilhada

A logística parece ser uma das maiores barreiras para a economia compartilhada prosperar. Devido ao estilo e variações de tamanho, marketplaces de moda precisam oferecer aos consumidores uma grande variedade de produtos que qualquer outro setor da economia compartilhada, como carros ou acomodação. O inventário também deve ser bem maior na moda, para acompanhar as tendências.

Convencer as pessoas a compartilhar roupas com outros também requer mais esforço do que em áreas como o compartilhamento de veículos ou acomodação – ambos que já estão disponíveis por anos.

Mas à medida que vão sendo introduzidos à iniciativas como bibliotecas de roupas ou movimentos que organizam bazares de troca, como o Trocaria, as pessoas começam a repensar seus hábitos de consumo e percebem que, além de uma alternativa econômica, também é mais consciente.

Leia o artigo original em Business of Fashion.

 

Texto enviado pelo site Trocaria para Fashion Revolution Brasil


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