Desafio para 2018: Vestir Sustentável em Portugal

by Fashion Revolution Portugal 1 week ago
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REDUZIR!
Há mais alguns Rs a aplicar e não são só 3.

Lamentamos a desilusão de dar a grande resposta de imediato. A questão é complexa e a resposta é rápida mas difícil – e portanto explorada em (muito) mais detalhe no decorrer do artigo. Se decidires continuar a ler, passarás a ser aquilo a que nós costumamos chamar de “revolucionário”. A partir daqui não ficarás indiferente ao problema. You have been warned. 

 

CADA VEZ MAIS ROUPAS

Desde os anos 2000 consumimos mais do dobro de peças de roupa que são mantidas por metade do tempo. Em média, 40% das nossas roupas são raramente ou nunca usadas e no Reino Unido são preservadas em média por apenas 3,3 anos.

Porque desenvolvemos esta atitude descartável em relação às roupas que sempre preservámos e estimámos?
Quando começámos a depender tanto desta indústria poluidora e exploradora?

Sempre que a Fashion Revolution Portugal organiza um mercado de trocas de roupa – de modo a impulsionar a circularidade de bens – fechamos o evento com o triplo do volume de peças com que iniciámos. Isto significa que até desejamos ter menos peças de roupa em casa mas o excesso de consumo de roupa e acessórios é um fenómeno internacional e é um dos maiores problemas da sustentabilidade global.

Já repararam que cada vez vemos mais roupa jogada na rua? Bodylessness da Maria Lima pretende documentar esse elo quebrado entre o valor das nossas roupas e a necessidade. São peças de roupa #asfound em várias partes de mundo partilhadas por quem as encontrar. [@bodylessness ]

O modelo de comércio de bens de moda ao que grande parte de nós recorre habitualmente – FAST FASHION – baseia-se na redução do preço das roupas para um nível que torne a compra por impulso num negócio imperdível. Existem marcas cujos preços praticados não possibilitam a venda online, uma vez que os custos de envio excedem o valor do próprio vestuário.

O marketing é uma ferramenta imprescindível e ajuda a criar no consumidor uma necessidade maioritariamente fictícia. Para tal, existem diferentes truques que incluem a produção de escassez artificial através de promoções especiais, edições limitadas, lojas pop-up temporárias ou eventos de compras. Os descontos e épocas/dias especiais de saldos são igualmente o grande motor deste sistema e cada vez mais frequentes – ex: Black Friday ou Singles Day na Ásia.

KEEP CALM! É simples, basta pensar bem antes de comprar.

#whomademyclothes Quem fez as nossas roupas? E em que condições?  Quando compramos uma peça de roupa sabemos as várias camadas da cadeia que estamos a pagar e quanto? [Fashion Revolution Fanzine #001 – disponível online]

COMPRAR PARA SER FELIZ

Um recente estudo da Greenpeace “After the binge the hangover” aponta que comprar roupas é inerente à nossa actual cultura de consumo diária. Mas hoje em dia, o vestuário já praticamente não constitui uma necessidade básica, uma vez que todos, de uma maneira ou de outra, praticamos um consumo excessivo de roupas.  O consumo actual de bens está inevitavelmente associado à obtenção de reconhecimento e é cada vez mais alimentado pelas redes sociais.

A forma mais fácil de compreender o problema é exactamente a olhar para nós próprios: comecemos por conhecer o nosso guarda-roupa: Sabes quantas peças de roupa tens e quantas não tens usado ou nem sabias que tinhas? Um grupo de estudantes de moda Holandeses juntou-se para ajudar os consumidores a pensar melhor as suas escolhas #getyourshittogether [Allison Murray, estudante na AMFI]

VIRÚS GLOBAL

Quantas vezes já compraste algo que não precisavas?
Comprar causa imediatamente uma sensação de satisfação e confiança e muitos consumidores fazem-no para aliviar stress ou como passatempo. No entanto, mais de metade dos consumidores reconhecem que essa sensação de preenchimento desaparece numa questão de dias, criando uma nova necessidade de consumo, num ciclo semelhante a um vício.

O problema é que as tendências de hoje serão o lixo de amanhã e o seu impacto imediato é invisível aos olhos do consumidor ocidental, como é explorado no documentário River Blue, sobre o impacto da moda no nosso bem mais precioso – a água. Este documentário tem estreia marcada em Lisboa no dia 29 de Março. Mais informações brevemente na página Fashion Revolution Portugal e Impact Hub Lisbon [River Blue still]

É importante sabermos o que temos e retirar-lhe o máximo de potencial, já reforçado há alguns anos pela Maria Guedes, Stylista, no seu livro “Tanta roupa e nada para vestir”. No The Uniform project, a Sheena conseguiu usar, durante um ano, apenas um modelo de vestido que conjugava com acessórios doados e posteriormente leiloados. O projecto tornou-se num desafio global e tem também o intuito de angariar dinheiro para projectos educativos na Índia.

 

CONSUMIDORES COMO PARTE DO PROBLEMA

Metade dos consumidores Europeus compra mais roupa do que aquela que necessita ou sequer usa. Na Ásia, 40% qualificam-se como consumidores compulsivos, comprando semanalmente.
Mas nem sempre foi assim, e os exemplos são próximos: não há tanto tempo, as roupas atravessavam gerações e as melhores eram exibidas ao Domingo! Ainda assim, esse tempo já é longínquo. Mas há muito para dizer, fazer e aprender quanto ao volume do nosso consumo e principalmente quanto ao lixo que produzimos de modo a podermos reconhecer o que nós, como sociedade, sempre soubemos: #lovedclotheslast .

A Teresa Gameiro é marca de acessórios que retoma a tradição têxtil da zona de Leiria e explica que “quando as tecedeiras da serra vinham à feira mensal receber as encomendas das mantas, quem encomendava dava-lhes os bagoxos (novelos de trapo) e também ovos, para fazerem gemada e terem mais força no tear.”. [@teresagameiro]

As soluções para o desperdício não precisam de ser inovadoras. Tapetes de trapos presos eram tapetes feitos com desperdícios menores, portanto fitas mais curtas e geralmente mais variadas. Sobre eles a Rosa Pomar acrescenta “É curiosa a opção deixada ao comprador: pagar os trapos, ou entregar igual quantidade “nem que seja por rasgar”.” [Postal editado pela Associação Etnográfica do Montemuro]

 

CONSUMIDORES COMO SOLUÇÃO

Porque importa a transparência?

Se individualmente reduzirmos o nosso consumo – e portanto o nosso impacto – pressionamos as empresas e marcas a repensar o seu modelo de negócio e podemos colectivamente assegurar que a indústria da moda se transforma numa indústria mais justa. A receita começa pela real valorização e acompanhamento do processo. Todas as marcas deveriam-se orgulhar de como produzem objectos que se conectam a um nível tão profundo com o ser humano. Há outras marcas que se orgulham ainda mais dessa ligação e partilham com o consumidor até o modo como gerem o seu negócio. A ISTO. é uma marca de roupa masculina orgânica e de produção nacional que revela todos os custos associados à produção de cada peça. Caso para dizer: o algodão não engana. [@isto. ]

M DE MUDAR

Modelo – A indústria da Moda é uma das mais globais. Um único produto pode viajar por múltiplos continentes antes até de chegar às lojas. É necessário repensar a logística global desta indústria e o seu modelo de negócios.

Materiais – A Moda tem um impacto ambiental e social demasiado negativo. A produção de roupas, o modo como a mantemos e o seu descarte geram um complexo problema de exploração excessiva de recursos de terreno, água e energia,  e de contaminação por químicos e principalmente de produção de lixo.

Mindset – A Moda não é uma força do bem, mas se queremos criar mudança e construir uma indústria positiva, precisamos de mudar o modo como pensamos nela. Precisamos pensar no que usamos e porque o usamos. Como consumidores, precisamos olhar para as nossas roupas como uma real extensão da nossa personalidade – como um investimento pessoal. Devemos reconhecer a ligação com as nossas roupas e aprender a mantê-las.

A Alinhavo será uma plataforma informativa e participativa sobre marcas presentes no mercado Português que ajudará o consumidor a comprar mais conscientemente. Podes encontrar muitos mais factos relativos ao impacto global da indústria têxtil na nossa página de Pinterest Fashion Revolution Quotes & Facts ou nas nossas redes sociais bem como nas da Alinhavo. [Alinhavo]

DESPERDÍCIO PRÉ-CONSUMO

O desperdício nesta indústria ocorre em várias fases e deve ser minimizado e redesenhado – deve ser sempre contabilizada não só a produção mas também o fim de vida de um produto. Restos de fibras provenientes da fase inicial de tratamento são tão poluentes que são considerados lixo tóxico – e só na China e na Índia são produzidas anualmente cerca de 440 mil toneladas.

Boa parte dos rolos de tecido que não são escoados em fábrica podem ser destruídos, enviados para lixeiras ou incinerados – há modos de contrariar este desperdício, uma vez que existem muitos retalhistas de stocks mortos e retalhos, como a Feira dos Tecidos, ou as próprias fábricas, permitindo ao consumidor – designer e maker – ter acesso a restos de fábrica e à pequena quantidade de que necessita.

Peças de malha tendem a gerar menos desperdício uma vez que o seu processo de construção é aditivo – não se subtrai matéria para os vários componentes. A Elememtum produz peças de roupa com o mínimo possível de cortes que, por outro lado, servem o máximo possível de usos – podem ser vestido, saia, lenço e casaco – tudo num só. Utiliza têxteis ecológicos de base maioritariamente vegetal, muitas vezes orgânicos, para nos lembrar que “luxury is to have simple things”. [Elememtum by Daniela Pais]

Na fase de manufactura são desperdiçados 60 biliões de m2 de tecido – cerca de 15% da matéria necessária ao fabrico de uma peça é descartada nesta fase. 0/100 é uma marca Italiana que trabalha com técnicas de produção zero-waste ao nível da modelagem e estabeleceu uma metodologia de Design que contabiliza que não exista desperdício em nenhuma das fases da concepção do produto – os fios inovadores utilizados nos tecidos são reciclados e desenvolvidos propositadamente restabelecendo também a tradição têxtil do norte de Italia. Nada se perde, tudo se transforma. [Zerobarracento por Camila Carrara]

Actualmente, na União Europeia é apenas recomendado a menção “Made in” que indica grosseiramente o local de confecção. Durante o processo de manufactura, as matérias e peças podem viajar por múltiplos países até à confecção e acabamentos, fazendo ainda mais longas viagens para chegar às lojas. Do avesso – ou os países que trazemos connosco é um projecto da artista Constança Saraiva e um mapa composto por várias etiquetas de vestuário doadas. ” What are the maps of our closets and of our drawers? What is the map drawn by the textile industry, globalization, capitalism or precarious labour? What is our map of today? Through the process of mapping what we wear, we understand the responsibility we carry as consumers.”  [Constança Saraiva, Inside Out or The Countries We Carry]

 

DESPERDÍCIO NO CONSUMO

Embora pouco falado, o desperdício que produzimos só durante a nossa compra pode passar por packaging desnecessário e merchandising – e até o talão de compra.
Sabiam que há marcas que fornecem um saco por item de modo a criar a ilusão de grandes compras e assim fomentar o desejo noutros consumidores que os vejam? As compras online, principalmente múltiplas e de entrega em casa, vêm geralmente individualizadas e ao impacto do transporte soma-se todo o invólucro de protecção.
A este desperdício está ligado também o impacto da manutenção das nossas roupas, tendo actualmente como problema central, a contaminação das águas correntes com micro-partículas de plástico, provenientes das nossas peças de fibras sintéticas. Estas micro-partículas são muito difíceis de filtrar e estudos revelam que voltam para nós na água canalizada que bebemos ou absorvidas pelos peixes com que nos alimentamos.

Como será a moda a granel – Package free? Podem-se já tomar várias opções na direcção de minimizar o seu uso – no sistema de envio online da Organii são reutilizadas caixas dos seus vários fornecedores.  [Kit compras sem desperdício d’ A MONTRA / THE WINDOW, plataforma de consumo e lifestyle consciente e sem desperdício]

DESPERDÍCIO PÓS-CONSUMO

Praticamente ninguém sabe o que fazer com a roupa que já não quer – e que é sempre muita!
Quase no pico da crise de refugiados no verão de 2015, e em Berlim, eram necessários mais voluntários só para organizar as roupas doadas do que para prestar apoio directo a quem acabava de chegar. Esta é uma situação comum até em instituições de apoio social Portuguesas, que acumulam roupa que, apesar de em bom estado, nem sempre encontra o seu novo dono.

Alguns países como o Quénia, já proibiram a entrada de mais roupa em 2ª mão para revenda, uma vez que o mercado se encontra saturado e tende a dificultar o crescimento da economia local e dos alfaiates tradicionais e comuns no país.

A Sara Rodrigues Pereira, designer por detrás da Slow Re Purpose, acredita que “You already have what you need” e transforma as nossas próprias peças, criando assim um serviço personalizado e muito próximo do Zero Waste. Ah! E cada peça é irrepetível e reversível, possíbilitando múltiplos usos. [Portfolio Slow Re Purpose]

A Carol from Lisbon faz upcycling de peças usadas e, através de várias técnicas e do seu universo criativo, torna-las únicas e fantásticas. A Elizab’hats por sua vez, cria chapéus de vários tipos a partir de gravatas! [Carol from Lisbon, L Manifesto]

 

USADO VS NOVO

É importante lembrar que todas as compras de roupa nova e barata criam um ciclo de descarte que produz:

+ emissões na produção e transporte;
+ consumo de novos recursos;
+ desperdício: por razoes de pouca durabilidade e não desejo;
– menos comércio local ou independente.

mas também:

+ oportunidades de emprego: geralmente precárias.

Compras em 2ª mão ou local:
– produção;
– novos recursos;
– transporte;
– aterro ou incineração;
+ economia local;
+ originalidade!

Há marcas que recolhem a própria roupa – como a Patagonia – para reparar ou revalorizar. Mas enquanto as marcas não assumem essa responsabilidade, em Lisboa e no Porto é possível obter ajuda gratuita na reparação da nossa roupa danificada nos Repair Café(s) promovidos pela Circular Economy Portugal ou nos Café Conserto. E no Re:Costura – oficina participada de transformação de roupa – é possível obter aconselhamento directo de vários Designers para uma transformação da peça efectuada por uma das Costureiras residentes. Isto possibilita ao cliente, para além de obter uma peça revitalizada e do seu agrado, acompanhar todo o processo tanto criativo quanto técnico, inspirando à valorização dos mesmos. [Re:costura, um projecto com a Fashion Revolution Portugal, FIO e Circular Economy Portugal]

SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA?

Na verdade não há uma grande solução para além da desaceleração: há várias coisas que podemos implementar individualmente para minimizar o problema. E não. Não é só a reciclagem.

Como devemos repensar os nossos hábitos mas também as nossas políticas, podemos começar por pressionar paralelamente as marcas e os governos e legisladores. Sabe como aqui ou junta-te à campanha Internacional da Greenpeace – Slowing down Fast Fashion. Para os mais activos: craftivismo!

A Economia Circular posiciona-se como alternativa ao sistema e uma solução ao problema, que nem sempre é de fácil implementação uma vez que requer uma mudança absoluta de paradigma – obriga ao fim do modelo linear (industrial) make – take – dispose (produzir, comprar, deitar fora e recomeçar) e vai contra a obsolescência programada.
Para a transição é necessário abandonar totalmente a fantasia de que a circularidade pode corrigir um sistema de uso intensivo de materiais de baixa qualidade, vendendo a falsa promessa de reciclar 100% dos resíduos. Na perspectiva do Cradle to Cradle, o menos mau não é bom e é preciso repensar os materiais de raiz pois uma prematura “economia circular” onde a reciclagem acontece antes que os processos desintoxicantes possam ocorrer, só agrava o problema ambiental.

Quanto mais tempo a roupa circular, melhor. É possível ampliar isso através de, por exemplo, mercados de trocas –  como o que organizamos – ou aluguer. A Chic by Choice é Portuguesa, fundada em 2014 pela Filipa Neto e a Lara Vidreiro, e desde então tem tido grande sucesso e escalonamento a alugar artigos de luxo e peças de autor para ocasiões especiais. O valor monetário da peça não deve ser o argumento principal para a compra. Descobre mais alternativas com a #Haulternative [@circular.flanders]

Quem se lembra da lição dos Rs?

São vários os colectivos que trabalham na implementação desta visão mais alargada, como o a Circular Economy PortugalBiovilla, a comunidade Lixo Zero Portugal  e A MONTRA/THE WINDOW.
Hoje já são mais que 3 “erres” e o da reciclagem é o último Recurso.

  • Rethink – Repensar – um que consideramos primordial e que vem reforçado no documentário Wasted Waste sobre desperdício e freeganismo em Portugal;
  • Refuse – Recusar – aquilo que não necessitamos – ao nível do packaging principalmente;
  • Reduce – Reduzir – ao que necessitamos. Sempre repensando as nossas escolhas;
  • Reuse – Reutilizar – aquilo que consumimos. Múltiplos usos ou reaproveitando e transformando. Em moda, o upcycling é o upgrade de uma ou várias peças de roupa num novo item, portanto melhorado, como explica e demonstra a Zélia Évora no seu livro “Re-use”;
  • Recycle – Reciclar – aquilo que não conseguimos recusar, reduzir ou reutilizar. Na indústria da moda, a opção da reciclagem ainda está inacessível, gerando o actual problema de acumulação de resíduos. Refere-se geralmente ao downcycling. Repensar e reduzir em primeiro lugar!
  • Rot – Refere-se à compostagem – é importante ilustrar que, apesar de pouco explorada ao nível das fibras têxteis, esta perspectiva da biodegrabilidade garante que aquilo que descartamos se decomponha rapidamente e alimente o solo e não que o polua como actualmente.
  • Respect – respeitar é para nós um R muito importante pois queremos transformar esta Indústria em algo transparente que beneficia e valoriza todos os que a compõem, pois queremos saber #whomademyclothes .

O estúdio wetheknot começou pelo exercício de recolher guarda-chuvas abandonados na rua para reaproveitar o tecido impermeável de modo a conceber calções de banho. [colecção WET, wetheknot]

COMO CONSUMIR MAIS SUSTENTÁVEL?

Mas então como funciona na prática?

Por favor considera a ordem: 1º USAR O QUE TEMOS! Vezes e vezes sem conta! ; BOA MANUTENÇÃO 😉 ; REPARAR! Acrescenta carácter à peça. ; COSTUMIZAR/TRANSFORMAR. Vai ficar única! ; TROCAR! E não é uma baldroca. ; PEDIR EMPRESTADO/ALUGAR. Até ocupa menos espaço. ; FAZER/DIY. Dá trabalho e ainda bem! ; 2ª MÃO. Os melhores achados. ;  (COMPRAR NOVO) Se nenhum dos anteriores funcionar. E experimenta fazer a tua compra em marcas locais e independentes. [‘Buyerarchy of Needs’ @sarahlazarovic]

RECICLAGEM EXPLICADA

Finalmente!

Em Portugal não há um sistema de recolha de têxteis alinhado com o dos outros resíduos que conhecemos. Maioritariamente nas cidades, existem contentores de empresas de recolha em parceria com autarquias ou já dentro de várias lojas. É importante desmistificar o que afinal acontece à roupa colocada nesses contentores.
Vamos começar já por falar nesse negócio imperdível de entregar roupa usada e receber um vale para gastar em roupa nova. De facto, estamos a receber algo por esse recurso mas é importante lembrar que isso também é um incentivo ao consumo e vincula-nos àquela marca em particular. Muitas vezes estamos a entregar roupa usada em óptimo estado que dá apenas um desconto em roupa nova que provavelmente vai durar pouco.
Quanto a colocar o nosso excedente nos contentores de recolha da rua, estes geralmente apresentam-se como recolha de doações a projectos de apoio social locais. Mas pensemos:
Estamos mesmo a ser bons cidadãos quando passamos aquilo que já não queremos para outros? 
E sabiam que esta roupa na verdade percorre um grande caminho até servir esse propósito?

Num universo estimado de cerca de 50 toneladas diárias de descarte (não existem números oficiais), só a Humana recolhe 10 toneladas de roupa por dia. Dessas, cerca de 15% são reutilizadas em Portugal; +/- 30% é reciclado na Península Ibérica; +/- 30% vai para revenda em países em desenvolvimento e +/- 5% são desperdício. Nos últimos anos, esta organização sem fins lucrativos, de apoio a projectos humanitários maioritariamente em África, tem obtido lucros difíceis de comprovar onde e como estão a ser aplicados (Sexta às 9, RTP, 2016 – minuto 16). 

Segundo a H SARAH Trading – Gestão e Reciclagem de Têxteis, “dada a complexa composição físico-química dos tecidos, estes materiais são de difícil degradação permanecendo por tempo indefinido no ecossistema. Contudo, quando devidamente encaminhados, 95% destes materiais são passíveis de reutilização/reciclagem.”

O que significa tudo isto?

ROUPA NO LIXO INDIFERENCIADO NÃO! Mas não tenham medo de colocar roupa danificada nos contentores de recolha. E roupa em bom estado? Reciclá-la nem sempre é o desejável. Nem tão possível assim. Já lá vamos! Dados da Agência Portuguesa do Ambiente APA indicam que 5% das 4607 toneladas de resíduos sólidos urbanos são resíduos que incluem o vestuário ou roupa de casa e que acabam num aterro ou são incinerados. Portanto, a maioria da nossa roupa pode não ter esse fim. No entanto, isto não significa que toda ela possa ser reciclada e portanto convertida em nova roupa, pois na realidade menos de 1% é verdadeiramente reciclada desse modo.

 

TRIAGEM, DOWNCYCLING E UPCYCLING? 

O que acontece então globalmente quando “reciclamos” roupa?

– 20-40% é reutilizado – revendido de volta aos consumidores
(para apoiar projectos de caridade ou não);
Consoante os níveis de qualidade, os materiais são encaminhados para diferentes destinos. As peças que se encontrem em estado novo ou seminovo podem ser encaminhadas directamente para projectos de apoio social – aqui sim estamos a doar a roupa – ou revendidos, algumas vezes para angariação de fundos.

– 20-30% é revendido no sul global (principalmente África);
Aquelas que não correspondem aos níveis de qualidade definidos no nosso país ou na Europa são valorizadas através da exportação – criando um grande e novo problema essencialmente nos mercados Africanos. Sabe mais aqui : https://www.facebook.com/FashionRevolutionPT/posts/1219364681417684

– 25-40% é downcycled;
Isto significa que são destruídos para formar novo material, de menor qualidade. Os artigos inaptos para reutilização seguem para reciclagem, dando origem a novos produtos – geralmente para outras indústrias (ex: isolamentos).

– Upcycling – transformação de peças de modo a acrescentar valor e qualidade técnica e estética – praticamente não acontece dentro deste universo da recolha de resíduos e menos de 1% é realmente reciclado para o fabrico de nova roupa.
Qual poderia ser o propósito de desfazer algo para criar o mesmo objecto, recorrendo no mínimo a novos recursos energéticos? 

Sabiam que a roupa feita a partir de materiais reciclados não é feita a partir de roupa reciclada? É produzida a partir de materiais resgatados de outras indústrias, geralmente menos complexos e abundantes (ex: Jeans ou sneakers reciclados feitos de plástico resgatado dos mares ou garrafas PET)

A MDMA é uma marca de sapatos Portuguesa, iniciada pela Sara Pignatelli, que utiliza no seu fabrico lixo indústrial – resíduos de borracha e outros e restos de tecido ou roupa descartada. Minimize damage, maximize art. [MDMA, via H Sarah Trading]

Por outras palavras, é provável que uma t-shirt não vai dar origem a outra t-shirt. 
Porquê? 

A ACTUAL TECNOLOGIA É INSUFICIENTE

Acabamentos e mistura de fibras dificultam a reciclagem – estas são características comuns a grande parte das nossas roupas.
A destruição de tecidos de fibras naturais enfraquece a fibra de modo a já não ser um material ideal para o fabrico de um novo produto – por vezes apenas 20% da fibra reciclada constitui um novo produto.
E nem todas as fibras sintéticas são possíveis de reciclar.
Segundo Alden Wicker, só um Polyester puro e raro de se encontrar pode ser reciclado – derretido e convertido em novo Polyester. Há mesmo muito poucas empresas a fazer este processo e existe uma grande dificuldade em triar esse material.
As fibras sintéticas, que são essencialmente filamentos plásticos, que não sejam possíveis de reciclar, demoram 500 a 1000 anos a decompor, sendo até lá absorvidas, por exemplo, pela vida marítima e por nós.

Inovação permite alguma reciclagem: Separação.
Existem algumas tecnologias que já conseguem separar as fibras e reciclá-las quase na sua performance máxima, mas é importante saber que estas opções ainda são economicamente pouco viáveis (ex: Blend Re:wind, Worn Again ou Procotex).

Segundo a Economia Circular, os materiais devem permanecer com o seu potencial máximo e o downcycling deveria ser o último recurso.

No caso do downcycling, as matérias resgatadas dão origem a novos produtos, geralmente para a Indústria automóvel ou da construção. A Moinho é uma empresa Portuguesa que produz  papel 100% reciclado, a partir de algodão proveniente de desperdício têxtil! Roupa velha, papel novo. [Moinho]

GREENWASHING E O MARKETING DO BEM

O que é? É é uma apropriação da sustentabilidade como tendência e pode ser observada e estudada junto de marcas Fast Fashion. A mudança de paradigma é imperativa e não pode ser momentânea.
O grupo H&M é um dos que recebe mais pressão junto dos consumidores e imprensa, pois é aquele que mais prega o investimento efectuado em sustentabilidade. Com um modelo de negócios que depende do consumo impulsivo e acelerado, é atacada, por exemplo, por demorar potencialmente 12 anos a reciclar toda a roupa recolhida só durante a campanha de reciclagem World Recycling Week, curiosamente coincidente com a Fashion Revolution Week, no passado Abril de 2017.
A I:CO é uma empresa Alemã pioneira na triagem que trabalha com a H&M e outras grandes marcas na recolha destes resíduos, encaminhando-os para novos destinos consoante o seu estado e qualidades.

A Global Fashion Exchange, que esteve em Lisboa em 2017, durante a Modalisboa, foi um importante passo para trazer a circularidade para o palco da moda e sensibilizar a uma maior escala os consumidores e key players da Indústria. No entanto, recolheu excedentes da iniciativa de trocas – que contabilizou quase 2 toneladas de roupa trocada em bom estado, e por vezes bens de segmento de luxo – que viajaram até à I:CO para serem redireccionados, perdendo-se assim a oportunidade de continuar um trabalho profundo com os consumidores e as autoridades e instituições Portuguesas.

A equipa Fashion Revolution Portugal acredita que é necessário expandir a nossa actual visão de sustentabilidade. E, acima de tudo, cooperar de modo a compreendermos como actuar localmente, contribuindo para a resolução do problema ao nível global. 

Podes escolher onde acabam as tuas roupas! Saber isso é quase tão importante quanto saber de onde vêm. Já pensaste bem em como minimizar o teu guarda-roupa responsávelmente? É DIFÍCIL, MAS NÓS TRABALHAMOS PARA ISSO E TU PODES AJUDAR! [FASHION REVOLUTION FANZINE #002]

 

(Texto: Teresa Carvalheira; Fotografia de cabeçalho: www.stuffdoesmatter.com)


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