Contentores de reciclagem de roupa? A verdade que o consumidor precisa saber

by Fashion Revolution Portugal 1 year ago
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Os chamados “contentores de reciclagem de roupa” podem parecer à partida uma ideia genial, mas escondem uma realidade muito mais complexa e nociva para países subdesenvolvidos.

Reciclar é bom e reutilizar é bom, mas no que toca a roupa, a quantidade que consumimos (e consequentemente doamos) é tanta, que é impossível ser escoada em Portugal. O problema está no consumo desmedido! Uma das maiores ONGs que opera no ramo recolheu só em 2015 mais de 5 mil toneladas de roupa doada. É verdade: A oferta é esmagadoramente maior que a procura!

O que geralmente acontece é que a roupa que é doada por si é recolhida a custo zero e revendida com margens de lucro em lojas de segunda mão. Este lucro é só depois aplicado em missões humanitárias, mas na realidade só cerca de 10% da roupa fica por terras lusas. Os restantes 90% são empacotados e enviados em contentores para países subdesenvolvidos em África, Europa de Leste e Sul da Ásia, onde são posteriormente vendidos nos mercados a preços tão baixos, que têm vindo a destruir a indústria têxtil local, apesar dos consecutivos esforços dos respetivos governos em subsidiar as fábricas para desenvolverem uma economia independente e livre da dívida do Ocidente. Nos últimos 30 anos, o Gana – o maior recetor de re-wear do mundo – viu a sua atividade reduzida de 40 fábricas para apenas 1; e no Zâmbia, o produtor de algodão passou a ter poder de compra só para roupa em segunda mão, e não para o seu próprio produto.

Ou seja: Ironicamente, estas roupas são feitas por comunidades pobres do terceiro mundo, para o consumidor ocidental as usar durante poucos meses, e as doar para organizações que as vendem de novo para o terceiro mundo, graças ao comércio livre que lhes mata a produção local e aprisiona a sua economia ao Ocidente.

Para além de Portugal, esta realidade acontece em muitos outros países da Europa, EUA, Japão e Canadá.

5298985312_e5f7f01cf0_bJá em relação à reciclagem – que em Portugal tem pouca expressão – muito pouco do que vem dos contentores é realmente reciclado, e quando o é, raramente é para voltar a fazer fio. Desengane-se quem pensa que de uma T-shirt doada, se faz outra nova e imaculada. A tecnologia vigente permite reciclar uma fibra só de cada vez (uma camisa 100% algodão, por exemplo, o que é raro!), sendo que todos os fios mistos (algodão-poliéster ou lã-acrílico, por exemplo) têm de passar por um processo químico pouco amigo do ambiente para suprimir uma das fibras. Ainda assim, o fio reciclado é pouco resistente e de fraca qualidade. O nosso sector da reciclagem está muito focado na trituração dos resíduos têxteis para a produção de colchões, indústria automóvel e panos de desperdício.

Ora bem, já sabemos que Portugal fica limpinho de resíduos têxteis. Mas, e no outro lado do mundo? Continuamos a ter a nossa quota-parte de responsabilidade enquanto consumidores, enquanto empresas que induzimos ao consumo desmensurado.

Aconselhamos a todos os consumidores a pensar 2 vezes sobre a estratégia de marketing da Inditex (Zara, Pull & Bear, Stradivarius, Bershka, Oysho, Massimo Dutti e outros) que por um lado lava a cara, mostrando-se falaciosamente “eco” aos olhos do seu consumidor, e por outro põe-se a jeito para induzir a um consumo ainda maior, estando já ali ao lado a vender produtos novos. Consumo este, que é na realidade a grande raiz deste problema! Mas que quanto maior for, mais convém à Inditex.

No fundo, é uma tática fácil! Será como dizer ao consumidor: – Anda! Eu ajudo-te a esvaziar o teu roupeiro, para poderes comprar mais, de consciência leve!

Pense primeiro:
– Preciso mesmo de roupa nova?
– Se preciso mesmo de roupa nova, posso reformar a que tenho ou trocar com alguém?
– Se não, posso comprar em segunda mão?
– Se não, posso fazer num(a) costureiro(a), ou comprar numa marca de comércio-justo?

 

Obrigada por ser curioso, questionar, e agir!

A equipa Fashion Revolution Portugal

 

Questione em portugal@fashionrevolution.org

Fontes: Al Jazeera, Independent, BBC, The Guardian, Expresso, RTP, INE

Fotos: Colin Crowley, 7/3/2009 (cabeçalho) e Cora Went, 26/10/2010


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