Comércio justo – Quais pontos avaliar?

by Fashion Revolution Brasil 4 months ago
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Por André Carvalhal
O comercio justo é um desses exemplos de união de valor econômico e social. Ele tem como meta aumentar a receita dos produtores, através do aumento do pagamento sobre a produção (ao invés de tentar apertar ou reduzir os valores na negociação). Trata-se de uma redistribuição de valores, na qual, se a organização cresce o fornecedor cresce também.
Mas aí você deve estar pensando “como vou aumentar o valor pago ao meu fornecedor, se não tenho dinheiro, se preciso vender mais e mais barato para continuar de pé?”. Geralmente o compromisso com o preço baixo de venda é o que desestrutura a cadeia. As marcas nunca querem diminuir os seus markups, e com isso apertam a margem dos seus fornecedores, que por sua vez precisam pensar em alternativas – nem sempre tão éticas, nem sempre de tanta qualidade – para continuar atendendo.
É, não é fácil mesmo. Principalmente se continuarmos pensando com a cabeça de antes, do capitalismo do velho mundo. Vamos precisar reconceber novos produtos e mercados. Novas fórmulas, novos padrões. Todas as iniciativas que abracei de produzir com mão de obra local, com matérias primas sustentáveis ou mesmo produtos inovadores, oneraram extremamente a produção. Como conseqüência o produto final. Então sei bem o que é isso.
Nenhuma solução será instantânea. A resposta não está em somente em uma ação, mas num conjunto delas. E eu tendo a acreditar cada vez mais que, “a solução” não está no binômio “compra e na venda”. É preciso trazer para o centro o que durante muito tempo estava à margem das empresas: a preocupação com o lucro.
Mais uma vez, devemos pensar no movimento que está acontecendo na alimentação (gastronomia). Algumas pessoas já estão topando pagar mais, para consumir alimentos que estimulam o desenvolvimento de produtores locais, pois reconhecem o valor do desenvolvimento da rede, e o valor de consumir produtos mais saudáveis, que a longo prazo vão melhorar sua qualidade de vida, saúde… elas estão se organizando pela internet para fazer compras coletivas, viabilizar entregas, e assim vão ajudando a viabilizar e desenvolver o negócio.
No Rio, o circuito orgânico, que organiza feiras de produtores locais, começou faturando R$ 700 mil em 2010 e em 2014 fez R$ 7,7 milhões, com 14 pontos de feiras. No Brasil, esse mercado faturou R$ 2,5 bilhões em 2015. Por conta da “popularização”, e o incentivo de quem compra e é fiel, os preços começaram a ficar mais convidativos. Já existem produtos (como folhas) que custam o mesmo preço das “comuns”, vendidas no supermercado. Thiago Gomide, da Junta Local, iniciativa que aproxima produtores locais do público consumidor (através de feiras, eventos, compras coletivas no site…), me disse que o foco é o comercio justo, com margem alta para o produtor e preço baixo para o consumidor.
Talvez na moda isso vá acontecer também. Principalmente se pensarmos que a roupa, assim como o alimento, é algo que está muito perto do nosso corpo. Cada vez mais as pessoas vão se abrir ao entendimento do (malefício) poder energético daquilo que carregam no corpo – não à toa, muitos desistiram de comer fast food, pois entenderem a carga energética desses produtos, que para atenderem ao “tempo” (rápido), são frutos da pressa, da falta de cuidado e das manipulações químicas. Já parou para pensar a carga energética de uma peça de roupa que também se esforça para atender a demanda do tempo acelerado?
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Vejamos agora, os princípios do comercio justo, de acordo com a Organização Mundial do Fair Trade:
1. Criar oportunidades para produtores economicamente desfavorecidos
Comércio justo é uma estratégia para a redução da pobreza, empoderamento econômico e desenvolvimento sustentável. Seu propósito é criar oportunidades para produtores desfavorecidos e marginalizados pelo sistema de trocas convencional.
2. Transparência e responsabilidade
Fair Trade envolve administração transparente e relações comerciais onde se lida de forma justa e respeitosa com seus parceiros e membros acionistas.
3. Práticas de negociação
A preocupação do comércio justo é para com o bem estar social, econômico e ambiental dos pequenos produtores marginalizados. Ele não maximiza os lucros às suas custas e cumpre os seus compromissos em tempo hábil. Reconhecendo as desvantagens financeiras que produtores e fornecedores enfrentam, clientes efetuam pagamento imediato ou um pagamento antecipado de ao menos 50%, caso seja proposto.
4. Pagamento de um preço justo
Um preço justo deve ser aquele que tenha sido mutuamente acordado por todos, por meio do diálogo e da participação dos envolvidos na comercialização, prevendo um pagamento justo aos agricultores e sustentado pelo mercado.
5. Assegurar que não haja trabalho infantil e trabalho forçado
A organização adere à convenção da ONU sobre Direitos da Criança, e à legislação local e nacional sobre o emprego de crianças. A organização deve assegurar que não há trabalho forçado em sua força de trabalho e/ou de seus membros.
6. Compromisso com não-discriminação, igualdade de gênero e livre associação
A organização não discriminará em contratar, remunerar e dar acesso a treinamento, promoção, conclusão ou aposentadoria baseada em raça, casta, nacionalidade, religião, deficiência, gênero, orientação sexual, filiação sindical, partido político, sorologia para HUV/Aids ou idade.
7. Assegurar boas condições de trabalho
O comércio justo propõe um ambiente de trabalho seguro e saudável para os trabalhadores e/ou seus membros, cumprindo, no mínimo, as leis nacionais e locais e as convenções da OIT sobre segurança e saúde.
8. Capacitação
As organizações de comércio justo buscam aumentar impactos de desenvolvimento positivo para produtores pequenos e marginalizados, que devem desenvolver atividades específicas para auxiliar os agricultores a melhorar suas habilidades de gerenciamento, capacidade de produção e acesso aos mercados.
9. Promoção do Movimento de Comércio Justo
As organizações promovem a conscientização dos objetivos do Movimento de Comércio Justo, da possibilidade de uma maior justiça no comércio mundial. Elas informam aos seus clientes sobre a organização, seus produtos e em quais condições eles são produzidos. Elas usam publicidade e técnicas de marketing honestas, e tem como meta os padrões mais elevados de qualidade e embalagem dos produtos.
10. Respeito ao meio ambiente
As organizações que produzem produtos de MFT devem maximizar o uso de matérias-primas provenientes de fontes geridas de forma sustentável em suas escalas e comprar localmente, quando possível. Elas utilizam tecnologias de produção que buscam reduzir o consumo de energia e minimizar a emissão de gases de efeito estufa. Elas procuram minimizar o impacto do seu fluxo de resíduos no ambiente. Produtores de mercadoria agrícola do Comércio Justo minimizam seus impactos ambientais através de utilizarem métodos de produção orgânicos, ou com baixa utilização de pesticidas, sempre que possível

Texto retirado do livro  “Moda com Propósito” cedido pelo autor, André Carvalhal para Fashion Revolution Brasil


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