Caro ou barato? O que você precisa saber sobre o preço da sua roupa.

by Fashion Revolution Brasil 4 weeks ago
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Por Modefica

Você sabe como as marcas precificam um produto? Como saber se você está pagando “caro” ou “barato” em uma peça? Muita gente acha que o preço das coisas gira única e exclusivamente em torno do valor agregado, ou seja, subentende-se que o custo de produção está longe de refletir o custo final do produto e o nome da marca é o único responsável por definir preços.

Isso é verdade para muitas coisas, por exemplo, bolsas de luxo consideradas “caras”. Uma bolsa cujo valor de mercado é R$ 20.000 não custou nem 1/100 disso para ser produzida, mesmo quando toda a cadeia de suprimentos e mão de obra foi extremamente bem remunera, mas o posicionamento de marca e seu público alvo condizem com o valor final da peça. Nesse caso, o valor agregado da marca faz total sentindo e reflete no preço do produto.

Na outra ponta, uma camiseta de R$ 20 significa, para muitos, um produto com preço “justo” ou “barato”.  A impressão que temos é por não estar comprando um produto “de marca”, o preço é justo e condiz com seu valor real. Entretanto, para uma peça de R$ 20 chegar ao mercado e ainda dar lucro à empresa, provavelmente alguém saiu perdendo e esse alguém costuma ser o elo mais fraco da cadeia: os trabalhadores ‘braçais’, sejam da confecção, sejam da extração ou produção da matéria-prima. Vide os casos frequentes de escândalos deflagrando trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Mas  em ambos os casos não importa se o seu produto custou R$ 20 ou R$ 20.000, ambos contam com uma cadeia de produção longa e globalizada – na moda, da produção da matéria-prima à peça pronta são mais de 100 etapas. Para grandes marcas, tanto as que vendem produtos muito caros ou muito baratos, a cadeia longa globalizada é uma vantagem: mais fácil encontrar fornecedores e mão de obra a preços competitivos. O custo da produção em escala é diluído nas milhares de peças produzidas, sobrando mais para o marketing e para os acionistas.

Para as empresas pequenas, a história é completamente diferente. A produção, no geral, costuma ser local, ou seja, não há competitividade e a briga de preços é completamente diferente do cenário global. A produção não é em escala, o que significa que todos os custos – do tecido à manutenção da empresa – serão diluídos em menos itens, tornando os produtos inevitavelmente mais caros. Geralmente, a mão de obra é internalizada ou terceirizada com responsabilidade, todos os fornecedores são checados e há uma responsabilidade maior envolvida em toda a produção.

É claro que, para tudo, há exceções à regra, temos produtos caríssimos sendo produzidos em condições horríveis enquanto produtos mais baratos são feitos em melhores condições. Preço não significa qualidade de produção, muito menos sustentabilidade, temos marcas de luxos posicionadas muito abaixo de marcas de fast-fashion em listas de sustentabilidade, por exemplo. Mas para as pequenas marcas é tudo uma questão puramente matemática: se abaixar o preço do produto ou a empresa fecha, ou a qualidade do produto cai ou alguém da cadeia de produção tem que ser exprimido.

Há algum tempo, conversamos com três pequenas empreendedoras de moda de São Paulo que nos ajudaram a esclarecer o assunto dos preços dos seus produtos. Todas elas pontuaram respeito à mão de obra, fornecedores confiáveis, qualidade de produto, escala de produção e “custo Brasil” como fatores cruciais da precificação.

Em suma, é impossível comparar uma peça de R$ 50 a uma peça de R$ 250 apenas pelo preço. É importante entender o tamanho da empresa, os seus valores centrais, como essas marcas produzem, em qual escala e como isso afeta o preço do produto. Um produto pode ser barato na prateleira, mas pode custar muito caro para as pessoas e para o meio-ambiente. Quando em dúvida, pergunte à marca sobre sua forma de produção e o porquê aquele produto custa o quanto ele custa. Provavelmente você vai entender o quanto tudo é muito mais complexo do que realmente parece.

Texto enviado por Insecta Shoes para Fashion Revolution Brazil


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